Paisagens, Ornatos e Outros Oficios
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Obras
Texto de apresentação
Paisagens, ornatos e outros ofícios
David Almeida
10.09 > 10.10.2026
Em colaboração com Projeto Fidalga /Residência Paulo Reis Residência de Criação Artística
Sem olhar a quem
Pensamentos sobre pintura a partir do trabalho de David Almeida É preciso fé para cortar as unhas, cuidar dos dentes como bens de empréstimo. O cobrador invisível bate à porta. Não durmo, ele também não. Deve ser amor o que nos deixa unidos neste avesso de mística. Por orgulho de pobre dou por bastante a pouca claridade e prefiro a vigília antes que ter repouso. Adélia Prado
Cézanne, em suas cartas ao amigo e poeta Gasquet, escreveu certa vez: “Três coisas constituem o fundo do ofício [...] escrúpulo, sinceridade e submissão. Escrúpulo perante as ideias, sinceridade perante nós mesmos, submissão perante o objeto.” Esta frase, quando a li, foi a faísca necessária para que eu escrevesse pela primeira vez um texto sobre o trabalho do David, há alguns anos atrás. Percebo na sua maneira de encarar a pintura essas três categorias. Vejo o David a trabalhar como um dínamo, salta de uma peça para a outra, se deixa levar pelo próprio movimento de uma tarde ou noite de ateliê. Começa, e no movimento impulsionado por este começo, é levado pelo trabalho e através dele, como se tivesse a noção clara de que não se deve resistir ao fato de que o trabalho também dita o seu próprio ritmo. Numa retroalimentação, ele cede ao trabalho sua energia, e a pintura também cede a ele alguma coisa.
A prática da pintura traz para quem a faz uma certa humildade. É uma propriedade da pintura, que, como meio, está constantemente a relembrar o pintor de sua própria ignorância e falta de controle. Pintar é também aprender a lidar com a falha, com o inesperado... com o indesejado. É aprender aaceitar e também a não aceitar, um exercício de decisão. É algo como fazer uma viagem que te leva do Brasil até Fátima e passar horas e mais horas a pintar ex-votos para ninguém. É conseguir, a partir disso, se lembrar de que a pintura nunca foi para ninguém em especial, nem para si. Decidir então aproveitar essas horas com presença, e louvar a pintura como algo que é feito para mundo.
É claro que existe uma parte do ofício da pintura que serve ao pintor, mas serve apenas na medida em que o próprio artista é transformado pelo seu trabalho enquanto o realiza. A outra parte, o objeto final, serve ao mundo. O objeto final da pintura é, afinal, para o mundo. Uma parte do que transforma este resultado num objeto pictórico é que ele está, a partir de sua conclusão, de forma não-marginal, no mundo. É nessa perspectiva então que a pintura encontra também uma espécie paradoxal de função: a pintura serve ao outro, é um serviço, na mesma medida em que é também um objeto errante, que não sabe para que serve, apesar de servir. A pintura talvez seja um ato de fé. É preciso acreditar no outro para pintar. É preciso acreditar que este serviço a se realizar chegará ao seu destino final: os olhos dos outros. Que lá cumprirá a sua função, seja ela qual for.
O corpo de trabalho do David é também inevitavelmente permeado por sua natureza, por quem ele é, pela história que deu a ele a sua forma de estar no mundo. É permeado pela vivência da cidade-satélite1 onde cresceu, pelo contato com a capital do Brasil mediado pela distância de sua casa e origem. Pelo entendimento que David tem da importância de uma história que vem antes de si próprio. A pintura, como já disse Richter (o mais novo), será também sempre o ato de espremer a espuma que é absorvida pelos nossos corpos e olhos, que agem como esponjas, no contacto com o mundo. Essa absorção é mediada pelos interesses, afinidades e negações do artista.
Durante muitas das últimas décadas, do Vale do Jequitinhonha aos confins do Goiás, no cerrado brasileiro, era possível e muito provável ouvir o nome de uma figura interessantíssima: Dércio Marques, grande violeiro e cantador. A verdade é que Dércio era mais do que um grande músico, era também um pesquisador ativo das tradições musicais brasileiras, era um cancioneiro que buscava entender, descobrir, conviver com seus pares, viver genuinamente os lugares por onde passava. Também entendia que a cultura brasileira necessitava de uma luta ativa para que fossem mantidas vivas as tradições da música popular. Sem guerreiros que estejam dispostos a manter vivas as coisas, elas podem se perder no tempo, Dércio sabia disso. Com um respeito infalível pelas tradições, um cuidado generoso para com as gerações por vir, e uma clara noção de que a herança cultural brasileira é também lusa, africana, indigena, ou seja, latina, mestiça, e exatamente por isso valiosa, Dércio mantinha a cabeça fresca sem se esquecer da importância de lutar pela continuação de algo que veio antes de si, que passou por ele e agora segue em frente, mesmo depois dele. O David me lembra o Dércio, ou vice-versa.
Heron do Prado Nogueira
Lisboa, 2026.
¹ As cidades periféricas do distrito federal, estado no qual fica Brasília, são chamadas de cidades-satélite, em referência ao fato de que “orbitam” a capital.